Casa cheia e alma lotada

Entre vozes e imagens, notícias e entretenimento, mal me vejo, mal me escuto, mal me encontro. Na falta de espaço para estar só, os pensamentos se embaralham em minha mente introspectiva e se transformam num grito abafado de saudade. Sinto falta de quem sou quando não tem mais ninguém na sala de estar. Das conversas, madrugadas a fio, com todas as versões de mim. Dos pensamentos abstratos que viram arte no papel, da paz que invade meu peito quando me pego olhando para o teto, da visão embaçada de quem não está no momento presente, no "aqui e agora". Sinto falta de chorar livremente sem que me perguntem se estou bem. E isso não significa que eu goste da solidão, de ser ignorada por pessoas ao meu redor, tampouco que não me importe com a preocupação de quem me ama. Contudo, ter momentos para ser eu mesma em toda a complexidade da minha experiência humana sem querer dividir isso com os outros é apenas uma exigência do meu lado mais profundo, o meu cerne, minha essência. Em outras palavras, minha alma anseia pelo incrível instante de solitude que recarrega todas as energias que a vida social demanda.  Solitude, a virtude de sentir prazer em estar apenas na própria companhia. O termo já existe em dicionários, mas o ato pode ser muito confundido com a solidão, com egoísmo, visto de maneira equivocada por quem não compreende tal necessidade. Entretanto, meus caros, essa é a fome que preciso saciar nesses tempos de quarentena por pandemia viral, que obriga todos os que residem no mesmo espaço a estarem juntos em todos os momentos do dia, sem fuga. A fome de autocuidado e autossuficiência. Anseio estar acompanhada por mim, e por mais ninguém, em alguns instantes desses dias infinitos.

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